A Chegada de Berenice

     Em 27 de julho deste ano (2024) Berenice chegou em minha vida. Quase uma semana após meu aniversário, em um sábado nublado e frio. Mas para entender como ela chegou preciso voltar 27 anos atrás, quando nasci.

    Nasci em uma família que adorava cães, desconheço uma vida sem a presença do "melhor amigo do homem". Tivemos diversos cachorros ao longo de todos esses anos, desde que eu nasci meus pais sempre tiveram em média 3 cachorros no pátio. Minha primeira lembrança de ternura com esses bichinhos é ao lado de Furia, um cachorro de porte grande, uma mistura de São Bernardo com Fila, peludo, orelhas caídas mas com a pelagem escura e levemente tigrada. Furia foi meu melhor amigo e meu guardião em meus primeiros anos de vida, se eu me machucasse ele ia me acudir ou chamar algum adulto, quando eu estava triste ele deitava a cabeça em meu colo e chorava comigo, quando eu estava brincando sozinha ele deitava ao meu lado e se permitia ser minha boneca. Enfim, partiu muito cedo! Teve um câncer que o levou aos 13 anos de idade... Ok, ok, eu sei que 13 anos de idade é uma boa idade para um cão de porte grande, mas eu ainda era pequena, eu ainda precisava dele! Furia  me ensinou a amar cachorros.

    Convivi com vários outros cães ao longo de minha vida até que chegou o dia de sair da casa de meus pais. Optei por não adotar nenhum bichinho, achava uma tortura colocar um cachorro dentro de um apartamento e deixá-lo lá sozinho o dia inteiro a minha espera, ainda mais eu, tão acostumada a ter vários correndo livres no pátio, fazendo buracos, caçando passarinhos, latindo até para o vento. Foi um período solitário, mas me mantive firme em minha decisão. Costumava dizer às pessoas que eu amava tanto os cachorrinho que optei por não ter nenhum, pelo menos por hora.

    Até que no início desse ano passei diversas situações extremamente difíceis, e todo sentimento que existia dentro de mim era o cansaço. Uma exaustão interminável! Estava cansada demais para sentir qualquer outra coisa, fosse ela boa ou ruim. Uma das situações que vivi foi um desastre climático que deixou milhares de cães e gatos sem dono, e saber disso me aflorou aquele desejo arrebatador de ter novamente uma companhia. O receio de deixar em apartamento continuou presente, mas eu também pensava que esses bichinhos não tinham lugar nenhum para ir, não faria tanta diferença ficar num sítio ou em um apartamento de 40m². Aí fui em busca da minha cara metade.

    Apesar de terem tantos animaizinhos disponíveis eu tinha algumas exigências, as mais importantes era que fosse fêmea e de porte pequeno. Não foi fácil encontrar porque esse era o perfil que a maioria das pessoas dispostas a adotar estavam procurando, mas minha amiga encontrou a Berenice. Não contem à Bere, mas eu achei ela tão feinha quando vi a foto pela primeira vez, ainda assim fui atrás dela.

     No início daquela semana já comecei a organizar as coisas, comprei caminha, ração, potes, coleira, brinquedos, tudo! E quando chegou sábado meus pais e eu entramos no carro com uma caixa de papelão e um potinho com comida e fomos buscar. Chegando lá ela estava brincando com os outros cachorros e não queria vir, quando peguei ela no colo tão pequeninha ela mordeu minha mão e rosnou em mim. Mesmo assim eu não parava de sorrir, em poucos minutos Berenice já me fazia muito feliz. Ela entrou no carro desesperada, chorando, provavelmente sentindo falta da mãezinha dela, mas logo comeu e dormiu. Levei-a direto ao veterinário até porque ela estava cheia de pulgas e ainda precisava tomar as vacinas. 

    Quando cheguei em casa e vi aquele monte de pulgas pulando quase entrei em desespero: o que eu fiz? Ali começava um novo desafio.

    

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